Crânios, esqueletos, assobios. O Coliseu dos Recreios como nunca o viu

Crânios, esqueletos, assobios. O Coliseu dos Recreios como nunca o viu

O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebe a exposição "Teatro Anatómico", que pôs dezenas de artistas a pensarem nos temas da medicina e da saúde a partir do espólio da bicentenária Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Nesta exposição, o Coliseu é recetáculo, mas também motivo de visita.

Oriana Barcelos - RTP Antena 1 / Adicionar como fonte informativa
A exposição "Teatro Anatómico" pode ser visitada até 29 de agosto | Oriana Barcelos - RTP Antena 1

À meia luz e com assobios disparados do palco, a sala principal do Coliseu dos Recreios parece envolta em mistério. Só que não há nada de místico aqui - há ciência e arte, num encontro que ganha forma na exposição "Teatro Anatómico".

O trabalho é co-curado pela artista plástica Marta de Menezes e pelo especialista em história da medicina e da cidade Manuel Valente Alves. Os dois conseguiram trazer, ao Coliseu, parte do espólio da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

A surpresa começa logo à entrada, no foyer da sala de espetáculos, onde estão expostos um micrótomo antigo, um aparelho que faz cortes microscópicos; e, também, uma das primeiras máquinas de raio-x usadas em Portugal - uma máquina que, embora pese meia tonelada, foi transportada em cenários de guerra, para detetar as fraturas nos ossos dos soldados. Ao centro, uma imagem de Ricardo Covões, o homem que iniciou a ligação da família Covões a este espaço da Rua das Portas de Santo Antão. E assim fica claro que, nesta exposição, o Coliseu dos Recreios é mais do que apenas o recetáculo das peças criadas pelos artistas a partir do espólio da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
"O meu intuito era efetivamente provocar as pessoas a pensarem que a comunidade é servida por variadíssimas instituições, por variadíssimos grupos de pessoas que estão preocupadas em fazer o seu trabalho para os servir, e estes são dois exemplos fundamentais para a cidade, fundamentais para a comunidade que servem e que, quer seja em termos de entretenimento ou cultura, seja ela popular ou não, quer seja em termos de conhecimento erudito e de medicina e biomedicina, todos estes conhecimentos são efetivamente um serviço a uma comunidade que precisa deles para ser saudável", justifica Marta de Menezes.


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A mostra abre-se a partir do foyer, subindo as escadas e entrando no clube do Coliseu. Em fundo, uma paisagem sonora de Erich Berger, com sons da natureza e outros que não podem ser descortinados pelo ouvido humano. Nas vitrines, peças históricas da faculdade: uma escultura de um pé, da autoria de Soares Branco, com data de 1955; um modelo em cera de um tronco aberto, com o cérebro e os nervos à mostra; e outros moldes de ouvidos e crânios.


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No mesmo espaço, estão ainda duas peças: uma de Ânia Pais, uma viagem ventral entre tecidos cor-de-terra; e outra de Sally Santiago, um trabalho que resulta de uma residência com médicos e que é uma interpretação artística sobre as várias camadas do corpo, através de tecidos e de bordados com projeções de uma auto-ressonância magnética.

O convite é simples: continuar o caminho e visitar as peças que estão expostas nos espaços habitualmente vedados ao público. O palco, inclusive, agora adornado com um manto de grandes dimensões, um elemento que deixou de ser usado, mas que foi recuperado, agora, nesta ocasião especial. Também aqui há uma instalação sonora, construída a partir do acervo dos sons dos marinheiros, homens que eram recrutados para gerir o movimento nos espetáculos, fazendo uso de um código de assobios. Agora, já não se assobia em palco, é sinal de má sorte, mas neste "Teatro Anatómico" tudo é possível.


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Nos corredores, nos camarins, nos camarotes, em todos os andares, a história do Coliseu mistura-se com a ciência. E a ciência mistura-se com a arte, porque uma e outra não estão em pontos opostos do conhecimento, acredita Marta de Menezes. "A arte, na verdade, é a origem do conhecimento. Pode não ser conhecimento científico, nem tem qualquer tipo de ambição de ser conhecimento científico, mas aquilo que nós construímos dentro de nós próprios, na presença de uma peça, seja ela artística, seja de outra natureza qualquer, é conhecimento, é conhecimento que é feito dentro de nós e é conhecimento que é absolutamente fundamental para avançarmos e pensarmos de uma maneira diferente no futuro", explicou.

A exposição "Teatro Anatómico" pode ser visitada até 29 de agosto
. É uma oportunidade para conhecer o trabalho de 15 artistas, a sua relação com os académicos da medicina de Lisboa, num Coliseu dos Recreios inteiro, sem limitações, visto aqui como nunca antes.
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